O Diálogo Inter-religioso como princípio

Edmar Avelar de Sena
   
   


O tempo presente está marcado por quebra de paradigmas com o passado. O fenômeno da globalização ajudou a relativizar fronteiras, o outro não parece mais tão distante. O grande desafio é viver a experiência da diversidade. No campo religioso a presença do diferente instaurou uma situação de pluralidade que nos coloca diante do outro e nos chama ao diálogo e a convivência. Muito mais que a tolerância, a convivência com o outro nos abre o caminho da partilha da experiência e da comunhão rumo a uma sociedade mais justa e de paz.

Porém, como já salientava Berger¹, há anos, em sua conhecida obra "O Dossel Sagrado", a mente humana abomina a insegurança, e é neste sentido, que a situação de pluralismo tornou-se um paradoxo: a diversidade que poderia ser uma riqueza fez surgir os ventos violentos do fundamentalismo. Isso porque sentimos insegurança diante do diferente e diante das várias cosmovisões, como se o chão sacudisse a nossos pés.

Mas é exatamente por ser desafiador que o diálogo com o diferente pode parecer perda de identidade. Essa falsa impressão de se sentir enfraquecido frente ao outro, abriu a possibilidade de uma busca violenta pela afirmação de identidades. O remédio do diálogo tornou-se amargo demais; a riqueza da diversidade converteu-se em empobrecimento da experiência religiosa trazida pela radicalização das identidades e pela busca de uma fundamentação literal do sagrado.

Assim, assistimos a atos de intolerância e rejeição, à condenação prévia e ao julgamento público do diferente. Mas quem é o fundamentalista? Fundamentalista "é aquele, portanto, que está muito mais interessado em guardar a letra da doutrina do que em fazer vivificar o seu espírito²" , isto é, aquela posição que ignora qualquer possibilidade de diálogo. E o fundamentalismo, segundo Boff,
"representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista³" , sem nenhuma possibilidade de abertura a novas visões de mundo, corrente que vê o diálogo como perda de identidade, que numa situação de concorrência busca a reafirmação de seu fundamento.

Mas falar de pluralismo religioso implica falar de secularização, ambos são fenômenos da modernidade. Secularização nas sociedades modernas, como observa Sanches, é o "processo desencadeado pela modernidade em que a religião perde o lugar de referência primordial para a compreensão do mundo" . Em outras palavras, podemos dizer que a secularização é a saída da religião do meio público e seu assento fica reservado à esfera privada. É ruptura de um monopólio religioso.

Apenas o aparecimento de diversas formas de crer numa sociedade não designa propriamente um pluralismo religioso, ainda segundo Sanches, é necessário fazer uma diferenciação entre pluralismo e pluralidade:

O pluralismo religioso exige a existência de determinadas condições sociais que possibilitam a prática religiosa e a expansão destas. Enquanto a pluralidade tem a ver com a possibilidade de ação de sujeitos religiosos (individuais e coletivos), o pluralismo religioso supõe condições objetivas, inclusive legais, que favoreçam a existência e a afirmação desses sujeitos. Uma dessas condições é o Estado secularizado que possibilita a existência e a competição de diversas visões de mundo.

Nesse sentido, para que haja um pluralismo religioso é preciso também que haja um Estado secularizado e que as estruturas socioculturais estejam abertas ao reconhecimento das práticas religiosas diversas.

E o campo religioso brasileiro? Aqui uma pergunta nos inquieta: existe diversidade ou não quando falamos de religião, pluralismo autêntico ou apenas uma pluralidade, várias formas de crer coexistindo num mesmo espaço? A resposta a estas perguntas fogem ao objetivo deste pequeno artigo e necessitam de uma análise profunda das diversas ciências que se debruçam hoje sobre o estudo das religiões na sociedade. Mas uma reflexão é possível ser feita a partir dos dados obtidos no censo 2000 sobre as religiões no Brasil. Se olharmos apenas os números somos levados a pensar como Pierucci que ao analisar tais números sugere que não há diversidade em nosso meio:

Vejamos mais de perto o que traz o censo: 73,8% dos brasileiros são católicos, 15,4% são evangélicos e logo a seguir, por ordem de tamanho, vêm os sem religião com 7,3% de autodeclaração. Olhando-se para a soma de 96,5%, pode-se constatar, não sem algum espanto, onde diabos foi parar aquela fabulosa diversidade religiosa de nossa religiosíssima população - numa apertada fatia de 3,5%.

Desta forma, podemos fazer a seguinte reflexão: se os números não nos ajudam a compreender em que grau vivemos uma diversidade religiosa e se, ao mesmo tempo, as próprias estruturas da sociedade parecem ainda não configurar um palco para o pluralismo, qual o objetivo do diálogo? Dialogar com quem e para quê?

O diálogo inter-religioso possibilita a comunhão fraterna em diferentes horizontes de fé, ao contrário do que pensa a posição fundamentalista, o diálogo não anula as identidades, mas parte delas para estabelecer a convivência.

A unidade na diversidade é a busca, o caminho da esperança e da paz. Seja na koinonia cristã, na ummah islâmica ou na sanga budista, o diálogo é sempre a abertura e a demonstração de que um outro mundo é possível.

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¹ BERGER, Peter L. O Dossel Sagrado. Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.

² PANASIEWICZ, Roberlei. Pluralismo religioso contemporâneo: diálogo inter-religioso na teologia de Claude Geffré. São Paulo: Paulinas; Belo Horizonte: PUC Minas, 2007. P52.

³ BOFF, Leonardo. Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002. P. 25.

4 SANCHES, Wagner Lopes. Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2005. (coleção Temas do Ensino Religioso) p. 30.

5 SANCHES, Wagner Lopes. Pluralismo...Op cit, p.39.

6 TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata. As religiões no Brasil: continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006.p. 51.

 

   
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