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ENSINO
RELIGIOSO MARCELINO
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Fundamentação do Eixo
Antropológico A educação religiosa tem, nos últimos
anos, aprofundado e ampliado seus fundamentos, se apresentando como disciplina
e, ao mesmo tempo, dimensão educacional imprescindível na
formação de crianças, adolescentes e jovens. As bases
de tais fundamentos estão assentadas, especialmente, na Antropologia.
Por isso, é muito importante apresentar as categorias principais
que se fazem presente no Eixo antropológico, começando pelo
núcleo central da própria educação religiosa.
Qual é o objeto da Educação Religiosa?
A educação religiosa visa educar a religiosidade, ou seja,
a dimensão do sentido da vida. Aqui reside o núcleo vital
desta área de conhecimento e da própria educação.
Ele fornece fundamento epistemológico à própria educação
ao apresentá-la como busca constante e permanente do ser humano,
ser que se compreende como finitude e também desejante de infinitude,
e que, ao conquistar conhecimentos, habilidades, competências e
domínios de toda ordem, para compreender e transformar a realidade,
faz tudo isto a partir de um SENTIDO. De que valeriam todos os conhecimentos
e toda a técnica se o ser humano perdesse o sentido da vida? A questão contemporânea que mais tem provocado
a reflexão dos grandes pensadores de nosso tempo diz respeito,
justamente, ao SENTIDO. Este é o problema antropológico
atual de maior importância: a "face paradoxal de uma civilização
que dispõe de todos os instrumentos e recursos materiais para assegurar
a sua sobrevivência e o seu progresso tecnológico, mas assiste
inquieta a uma crise profunda do seu universo simbólico e das suas
próprias razões de ser". Daí nasce a necessidade
radical de fundamentar a educação religiosa numa concepção
de ser humano aberta e crítica, que integre as diversas reflexões
sobre o homem nas ciências, na filosofia e na teologia cristã,
propiciando aos educadores e educandos as condições de construírem
um SENTIDO PROFUNDO DA VIDA. Tal tarefa, específica da Educação
Religiosa, se insere no projeto mesmo de todo programa educativo. O ser humano é pessoa, conceito caro à teologia
cristã, que foi sendo elaborado em longa história e que
sintetiza e integra os diversos aspectos e dimensões do ser humano.
A partir deste conceito abre-se a perspectiva de diálogo com o
mundo moderno e pós-moderno, questionando as interpretações
redutivas que limitaram enormemente a compreensão e ação
do homem hodierno. Num primeiro sentido, pessoa significa que o homem é
unidade dialética que integra em seu ser espírito e corpo,
expressos de forma masculina e feminina. Mas também significa a
pluralidade de aspectos ou sua pluridimensionalidade. O ser humano é
ao mesmo tempo uno e plural, ou poderíamos dizer que é uma
unidade plural ou uma pluralidade que se unifica. Noutro sentido, pessoa comporta duas dimensões fundamentais.
A primeira dimensão é a interioridade ou imanência
que pode ser entendida como: 1) "autonomia e autopertença":
o ser humano é próprio e original; 2) "liberdade e
responsabilidade": o homem é um ser de possibilidade, capaz
de fazer escolhas, ser de decisão e que responde por sua capacidade
de ser e fazer; 3) "perseidade": ele tem em si mesmo sua própria
finalidade, se auto-realiza e não pode ser medido com critérios
utilitários. Tal dimensão deve ser entendida e necessariamente
completada com a segunda: a abertura ou transcendência. O ser humano,
homem e mulher, é chamado, vocacionado a abrir-se: ao mundo, aos
outros e a Deus. Afirmar que o homem é pessoa significa, então,
dizer que em todos os aspectos humanos estão presentes estas duas
dimensões: interioridade e abertura, imanência e transcendência.
Em sua interioridade a pessoa humana é sujeito,
liberdade, individualidade, autonomia, intencionalidade, originalidade,
responsabilidade, vir-a-ser. Tem em si, sua própria razão
de ser, sua finalidade. Descuidar de sua autofinalidade aliena o homem,
desumanizando-o. Mas afirmar só a interioridade ou a imanência
seria reduzir o homem à pura individualidade, propiciando toda
forma de individualismo e suas conseqüências. Esta dimensão
sozinha não expressa a pessoa. A abertura revela a outra dimensão fundamental:
o homem é ser-de-relação. Em primeiro lugar, o ser
humano é abertura ao mundo: é no mundo que o homem se faz
e se transforma, ao transformar-se e transformá-lo pelo trabalho,
pela criação do "mundo humano", a cultura e pela
relação-cuidado com a natureza. Ele é convocado a
ser gerenciador do mundo, CUIDADOR, responsável por sua "casa",
o mundo, a terra - a casa comum (ecologia). O ser humano é parte
da natureza, forma com ela uma grande fraternidade. Ele é a natureza
que chegou à consciência. E é dentro desta perspectiva
que se entende a profissão (professu=perito, ofício), maneira
pela qual o homem exerce seu papel de transformador do mundo, assumi e
a responsabilidade de zelar e cuidar, ser co-criador. O homem é chamado, também, a abri-se ao outro
(alteridade), aos outros (intersubjetividade), revelando-se ser-social.
Este aspecto aponta para uma questão importantíssima na
experiência cristã: o homem é vocacionado a ser irmão,
irmão de todos os homens. Ele pode exercer de forma plena sua capacidade
dialógica nas diversas e múltiplas formas de relação
social: afetividade, sexualidade, política, religião, enfim,
em toda sua vida social. Mas ser interiorização e abertura
ao mundo e ao outro não expressam tudo o que é a pessoa
humana. Falta a abertura mais significativa, aquela que aponta para a
transcendência, para o profundo e radical sentido da vida: DEUS,
o sentido último e definitivo. Reunindo em si a imanência e a transcendência o ser humano descobre-se vocacionado a ser feliz, testemunhar a alegria, a festa, a comemoração-celebração da vida. Tal felicidade deve se expressar na história, mas a transcende. Para os que têm fé ela está no sentido último e transcendente da vida: DEUS. Os homens são, então, chamados a assumir a sua condição fundamental de filhos de Deus. Assumir esta filiação, traz enormes conseqüências,
pois ela começa a se realizar na história (historicidade)
e na relação com o outro (alteridade) e os outros (intersubjetividade).
Como sujeito histórico e como liberdade relacional (individual
e social) o homem se torna responsável pela história. A
historicidade (fazer a história), revela, pois, a capacidade de
mudança, de transformação do homem. E na visão
cristã é incompreensível falar de filiação
divina sem que isto leve à fraternidade, à solidariedade,
à amizade, à partilha, à comunhão, ao amor,
à luta pela dignidade de todos, à construção
da coisa-pública, à política, à participação,
à superação de toda forma de preconceito e de toda
violência, à transformação do mundo, de si
e da sociedade. Vemos, então, que a interiorização
e a abertura se articulam, se integram e expressam, portanto, o conceito
de pessoa, revelando a vocação transcendental do homem de
ser feliz, através de sua tríplice condição:
FILHO, IRMÃO e CUIDADOR , revela também que entre Deus,
o ser humano e o mundo/natureza existe uma imensa fraternidade que, garantindo
a autonomia e a diferença, ao mesmo tempo expressa profunda comunhão
teoantropocósmica. A pessoa humana, poderíamos dizer, é
a expressão conceitual e existencial da obra mais bem acabada da
criação: nela se revela o próprio Deus. O ser humano, homem-mulher, é a imagem e a semelhança
de Deus, ao mesmo tempo imagem-semelhança e alteridade: Deus é
o totalmente Outro do ser humano e o seu igual, desafiando-o a conviver
com o semelhante (o próximo) e o diferente (o outro), a se superar,
a enfrentar o conflito, a crise (momento de purificação
e de crescimento). Criados com uma diversidade incrível de possibilidades
de expressar o prazer, testemunho de alegria e amor, seu sentido profundo,
homens e mulheres dão testemunho, em sua corporeidade (corpo-espiritual
e espírito-corporal) desta bondade da vida e da unidade aberta
de sua condição. Esta concepção antropológica que afirma
a pessoa humana como imagem e semelhança de Deus, para nós
cristãos, tem um significado fundamental, pois nos leva ao centro
de nossa fé: a ENCARNAÇÃO. JESUS CRISTO é
o próprio Deus que se humaniza, que se revela como interioridade
e abertura, que ao nos revelar Deus nos revela a nós mesmos. Ele
é ao mesmo tempo projeto e realização do ser humano,
Homem-Deus e Deus-Homem que sintetiza em sua vida a criação
(o novo Adão) , a revelação (o plano-projeto de Deus,
seu sonho e utopia para o homem) e a salvação (o fim último,
escatológico do homem, sua vocação transcendental:
o Reino, o Céu; o já, que começa aqui, e o ainda-não;
utopia e esperança). Como homem, Jesus nos revela o SENTIDO RADICAL: DEUS, e
o faz com palavras (Bíblia: palavra encarnada de Deus) e a própria
vida (sua existência e sua morte). Uma palavra sintetiza de forma
absoluta e incondicional o que é o SENTIDO e quem é DEUS:
"Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus
é Amor" (1 Jo 4,8). Sabemos que Jesus é Deus pelo amor
que nos revelou, e o amor que temos e geramos, testemunha esta presença
de Deus. Pelo amor conhecemos a infinitude e sua possibilidade. A ressurreição
de Jesus se revela como a experiência que abre a todos os homens
a transcendência, a qual já podemos senti-la, antecipadamente,
através do amor. A morte não tem a última palavra:
a vida vence! A vida de Jesus, vitoriosa até no seu limite derradeiro,
a morte, revela a nossa própria humanidade, seus valores e limites,
sua transcendência e finitude, e também, sua superação
e salvação (a absoluta libertação). Mas a
morte, o sofrimento são traços da finitude humana, como
também a ambigüidade, a vulnerabilidade e o pecado, a recusa
da oferta graciosa de amor. O pecado é a face demens demens do
ser humano, expressão de sua dimensão dia-bólica
(dia-bállein = lançar para longe, desagregar, desunir, separar).
O ser humano, porém, é capaz de gerar encontro, expressar-se
como sapiens sapiens, como sim-bólico (sym-bállein = lançar
junto, reunir, congregar, unir). É capaz de salvar-se. E a encarnação
do Verbo (palavra-comunicação) é a revelação
do amor absoluto e, incondicionalmente, livre de Deus que nos chama ao
seu encontro. E ela só acontece pela absoluta liberdade de Deus
e a liberdade, opção, desejo e o sim humano de Maria (o
feminino) e o compromisso de José (o masculino). O Pai se faz Filho! Deus se desabsolutiza e se humaniza,
resgata todo valor ultrajado do ser humano: Jesus nasce pobre entre os
pobres e anuncia que o homem é o absoluto de Deus, em qualquer
condição, todos os homens e mulheres são filhos e
irmãos, chamados à plenitude de sua dignidade divina. O
amor de Deus é, pois, incondicional e absolutamente livre em tudo
(na criação, na revelação, na encarnação
e na salvação), porque ele é GRAÇA, é
gratuito, é um presente, é a festa da vida. Gerado, vivendo
e participando desta total liberdade o homem pode, contudo, negar e rechaçar
o presente e até o ofertante: ele pode criar ou viver o Inferno,
pode criar e cultivar o mal (mal-moral), fazer sofrer a tantos e de tantos
modos. Mas Deus não deixa de presentear, ele sempre está
pronto para acolher, perdoar, reconciliar, chamar à vida, dar nova
chance, re-ligar. Ele é o SENTIDO que nos faz compreender a vida
e enfrentar seus mistérios mais desafiantes. A história da humanidade, a história do Cristianismo,
a história Marcelina desde o começo com BIRAGHI e até
hoje com seus seguidores e seguidoras, a nossa história do Brasil,
enfim, todas essas histórias e muitas outras estão repletas
de pessoas que descobriram e ajudaram os outros a descobrir este SENTIDO:
profetas, mártires, santos, heróis, pessoas anônimas...
Construíram nossa história e nos desafiam a fazer o mesmo.
Fizeram-se, verdadeiramente, seres humanos, como homens e mulheres, e
nos chamam a construir e a dinamizar a nossa pessoa. O Espírito
de Deus sempre esteve e sempre estará presente animando-nos nesta
tarefa. Ele é a chama que ilumina, o fogo que aquece e abrasa os
corações, Aquele que unifica a comunidade trinitária
(PAI-FILHO-ESPÍRITO), comunidade-modelo de unidade e pluralidade
(da igreja, família, sociedade) de interioridade e abertura, expressão
maior do SENTIDO: O AMOR! Os fundamentos antropológicos que devem nortear nosso Programa
de Educação Religiosa revelam, pois, uma concepção
de ser humano pluridimensional, articulada no extraordinário conceito
de pessoa. Esta pluridimensionalidade, complexa e diversa, recolhe o que
há de mais significativo na tradição filosófica,
eclesial e teológica e, em sua amplitude e profundidade, revela-se
capaz de dialogar, de forma crítica, com as ciências e com
a racionalidade contemporânea. Mostra-se ainda como concepção
provocadora da interdisciplinaridade, integrando e respeitando, profundamente,
a diversidade e a diferença. Estes fundamentos são o alicerce
que estrutura o trabalho, o esforço, a dedicação
e a coragem de educandos e educadores em descobrirem-construirem O SENTIDO
DA VIDA: DEUS. Muitos não reconhecerão o SENTIDO com este
nome. Talvez digam que o SENTIDO é o amor, a justiça, a
liberdade... Mas nós sabemos identificá-lo. E foi graças
ao testemunho de tantos que reconhecemos que DEUS É O AMOR.
BIBLIOGRAFIA
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