ENSINO RELIGIOSO MARCELINO
   
       
   

Fundamentação do Eixo Antropológico
Por Paulo Agostinho Nogueira Baptista

A educação religiosa tem, nos últimos anos, aprofundado e ampliado seus fundamentos, se apresentando como disciplina e, ao mesmo tempo, dimensão educacional imprescindível na formação de crianças, adolescentes e jovens. As bases de tais fundamentos estão assentadas, especialmente, na Antropologia. Por isso, é muito importante apresentar as categorias principais que se fazem presente no Eixo antropológico, começando pelo núcleo central da própria educação religiosa.

Qual é o objeto da Educação Religiosa? A educação religiosa visa educar a religiosidade, ou seja, a dimensão do sentido da vida. Aqui reside o núcleo vital desta área de conhecimento e da própria educação. Ele fornece fundamento epistemológico à própria educação ao apresentá-la como busca constante e permanente do ser humano, ser que se compreende como finitude e também desejante de infinitude, e que, ao conquistar conhecimentos, habilidades, competências e domínios de toda ordem, para compreender e transformar a realidade, faz tudo isto a partir de um SENTIDO. De que valeriam todos os conhecimentos e toda a técnica se o ser humano perdesse o sentido da vida?

A questão contemporânea que mais tem provocado a reflexão dos grandes pensadores de nosso tempo diz respeito, justamente, ao SENTIDO. Este é o problema antropológico atual de maior importância: a "face paradoxal de uma civilização que dispõe de todos os instrumentos e recursos materiais para assegurar a sua sobrevivência e o seu progresso tecnológico, mas assiste inquieta a uma crise profunda do seu universo simbólico e das suas próprias razões de ser". Daí nasce a necessidade radical de fundamentar a educação religiosa numa concepção de ser humano aberta e crítica, que integre as diversas reflexões sobre o homem nas ciências, na filosofia e na teologia cristã, propiciando aos educadores e educandos as condições de construírem um SENTIDO PROFUNDO DA VIDA. Tal tarefa, específica da Educação Religiosa, se insere no projeto mesmo de todo programa educativo.

O ser humano é pessoa, conceito caro à teologia cristã, que foi sendo elaborado em longa história e que sintetiza e integra os diversos aspectos e dimensões do ser humano. A partir deste conceito abre-se a perspectiva de diálogo com o mundo moderno e pós-moderno, questionando as interpretações redutivas que limitaram enormemente a compreensão e ação do homem hodierno.

Num primeiro sentido, pessoa significa que o homem é unidade dialética que integra em seu ser espírito e corpo, expressos de forma masculina e feminina. Mas também significa a pluralidade de aspectos ou sua pluridimensionalidade. O ser humano é ao mesmo tempo uno e plural, ou poderíamos dizer que é uma unidade plural ou uma pluralidade que se unifica.

Noutro sentido, pessoa comporta duas dimensões fundamentais. A primeira dimensão é a interioridade ou imanência que pode ser entendida como: 1) "autonomia e autopertença": o ser humano é próprio e original; 2) "liberdade e responsabilidade": o homem é um ser de possibilidade, capaz de fazer escolhas, ser de decisão e que responde por sua capacidade de ser e fazer; 3) "perseidade": ele tem em si mesmo sua própria finalidade, se auto-realiza e não pode ser medido com critérios utilitários. Tal dimensão deve ser entendida e necessariamente completada com a segunda: a abertura ou transcendência. O ser humano, homem e mulher, é chamado, vocacionado a abrir-se: ao mundo, aos outros e a Deus. Afirmar que o homem é pessoa significa, então, dizer que em todos os aspectos humanos estão presentes estas duas dimensões: interioridade e abertura, imanência e transcendência.

Em sua interioridade a pessoa humana é sujeito, liberdade, individualidade, autonomia, intencionalidade, originalidade, responsabilidade, vir-a-ser. Tem em si, sua própria razão de ser, sua finalidade. Descuidar de sua autofinalidade aliena o homem, desumanizando-o. Mas afirmar só a interioridade ou a imanência seria reduzir o homem à pura individualidade, propiciando toda forma de individualismo e suas conseqüências. Esta dimensão sozinha não expressa a pessoa.

A abertura revela a outra dimensão fundamental: o homem é ser-de-relação. Em primeiro lugar, o ser humano é abertura ao mundo: é no mundo que o homem se faz e se transforma, ao transformar-se e transformá-lo pelo trabalho, pela criação do "mundo humano", a cultura e pela relação-cuidado com a natureza. Ele é convocado a ser gerenciador do mundo, CUIDADOR, responsável por sua "casa", o mundo, a terra - a casa comum (ecologia). O ser humano é parte da natureza, forma com ela uma grande fraternidade. Ele é a natureza que chegou à consciência. E é dentro desta perspectiva que se entende a profissão (professu=perito, ofício), maneira pela qual o homem exerce seu papel de transformador do mundo, assumi e a responsabilidade de zelar e cuidar, ser co-criador.

O homem é chamado, também, a abri-se ao outro (alteridade), aos outros (intersubjetividade), revelando-se ser-social. Este aspecto aponta para uma questão importantíssima na experiência cristã: o homem é vocacionado a ser irmão, irmão de todos os homens. Ele pode exercer de forma plena sua capacidade dialógica nas diversas e múltiplas formas de relação social: afetividade, sexualidade, política, religião, enfim, em toda sua vida social. Mas ser interiorização e abertura ao mundo e ao outro não expressam tudo o que é a pessoa humana. Falta a abertura mais significativa, aquela que aponta para a transcendência, para o profundo e radical sentido da vida: DEUS, o sentido último e definitivo.

Reunindo em si a imanência e a transcendência o ser humano descobre-se vocacionado a ser feliz, testemunhar a alegria, a festa, a comemoração-celebração da vida. Tal felicidade deve se expressar na história, mas a transcende. Para os que têm fé ela está no sentido último e transcendente da vida: DEUS. Os homens são, então, chamados a assumir a sua condição fundamental de filhos de Deus.

Assumir esta filiação, traz enormes conseqüências, pois ela começa a se realizar na história (historicidade) e na relação com o outro (alteridade) e os outros (intersubjetividade). Como sujeito histórico e como liberdade relacional (individual e social) o homem se torna responsável pela história. A historicidade (fazer a história), revela, pois, a capacidade de mudança, de transformação do homem. E na visão cristã é incompreensível falar de filiação divina sem que isto leve à fraternidade, à solidariedade, à amizade, à partilha, à comunhão, ao amor, à luta pela dignidade de todos, à construção da coisa-pública, à política, à participação, à superação de toda forma de preconceito e de toda violência, à transformação do mundo, de si e da sociedade.

Vemos, então, que a interiorização e a abertura se articulam, se integram e expressam, portanto, o conceito de pessoa, revelando a vocação transcendental do homem de ser feliz, através de sua tríplice condição: FILHO, IRMÃO e CUIDADOR , revela também que entre Deus, o ser humano e o mundo/natureza existe uma imensa fraternidade que, garantindo a autonomia e a diferença, ao mesmo tempo expressa profunda comunhão teoantropocósmica. A pessoa humana, poderíamos dizer, é a expressão conceitual e existencial da obra mais bem acabada da criação: nela se revela o próprio Deus.

O ser humano, homem-mulher, é a imagem e a semelhança de Deus, ao mesmo tempo imagem-semelhança e alteridade: Deus é o totalmente Outro do ser humano e o seu igual, desafiando-o a conviver com o semelhante (o próximo) e o diferente (o outro), a se superar, a enfrentar o conflito, a crise (momento de purificação e de crescimento).
Criaturas de Deus, homem e mulher, pela capacidade de transformar , criar, produzir e se relacionar, tornam-se co-criadores. Especialmente pela sexualidade, mulher e homem criam-com-Deus, pois geram o mais fantástico dom de Deus: a Vida. Estabelecem, também, o ambiente gerador e cultivador desta vida: a família, matriz das relações comunitárias e sociais, fonte da experiência de amor que poderá se expressar como afetividade, amizade, eros e filia-ágape (amor ao próximo e a Deus, tendo na vida consagrada e ministerial outro sinal visível).

Criados com uma diversidade incrível de possibilidades de expressar o prazer, testemunho de alegria e amor, seu sentido profundo, homens e mulheres dão testemunho, em sua corporeidade (corpo-espiritual e espírito-corporal) desta bondade da vida e da unidade aberta de sua condição.

Esta concepção antropológica que afirma a pessoa humana como imagem e semelhança de Deus, para nós cristãos, tem um significado fundamental, pois nos leva ao centro de nossa fé: a ENCARNAÇÃO. JESUS CRISTO é o próprio Deus que se humaniza, que se revela como interioridade e abertura, que ao nos revelar Deus nos revela a nós mesmos. Ele é ao mesmo tempo projeto e realização do ser humano, Homem-Deus e Deus-Homem que sintetiza em sua vida a criação (o novo Adão) , a revelação (o plano-projeto de Deus, seu sonho e utopia para o homem) e a salvação (o fim último, escatológico do homem, sua vocação transcendental: o Reino, o Céu; o já, que começa aqui, e o ainda-não; utopia e esperança).

Como homem, Jesus nos revela o SENTIDO RADICAL: DEUS, e o faz com palavras (Bíblia: palavra encarnada de Deus) e a própria vida (sua existência e sua morte). Uma palavra sintetiza de forma absoluta e incondicional o que é o SENTIDO e quem é DEUS: "Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor" (1 Jo 4,8). Sabemos que Jesus é Deus pelo amor que nos revelou, e o amor que temos e geramos, testemunha esta presença de Deus. Pelo amor conhecemos a infinitude e sua possibilidade. A ressurreição de Jesus se revela como a experiência que abre a todos os homens a transcendência, a qual já podemos senti-la, antecipadamente, através do amor. A morte não tem a última palavra: a vida vence!

A vida de Jesus, vitoriosa até no seu limite derradeiro, a morte, revela a nossa própria humanidade, seus valores e limites, sua transcendência e finitude, e também, sua superação e salvação (a absoluta libertação). Mas a morte, o sofrimento são traços da finitude humana, como também a ambigüidade, a vulnerabilidade e o pecado, a recusa da oferta graciosa de amor. O pecado é a face demens demens do ser humano, expressão de sua dimensão dia-bólica (dia-bállein = lançar para longe, desagregar, desunir, separar). O ser humano, porém, é capaz de gerar encontro, expressar-se como sapiens sapiens, como sim-bólico (sym-bállein = lançar junto, reunir, congregar, unir). É capaz de salvar-se. E a encarnação do Verbo (palavra-comunicação) é a revelação do amor absoluto e, incondicionalmente, livre de Deus que nos chama ao seu encontro. E ela só acontece pela absoluta liberdade de Deus e a liberdade, opção, desejo e o sim humano de Maria (o feminino) e o compromisso de José (o masculino).

O Pai se faz Filho! Deus se desabsolutiza e se humaniza, resgata todo valor ultrajado do ser humano: Jesus nasce pobre entre os pobres e anuncia que o homem é o absoluto de Deus, em qualquer condição, todos os homens e mulheres são filhos e irmãos, chamados à plenitude de sua dignidade divina. O amor de Deus é, pois, incondicional e absolutamente livre em tudo (na criação, na revelação, na encarnação e na salvação), porque ele é GRAÇA, é gratuito, é um presente, é a festa da vida. Gerado, vivendo e participando desta total liberdade o homem pode, contudo, negar e rechaçar o presente e até o ofertante: ele pode criar ou viver o Inferno, pode criar e cultivar o mal (mal-moral), fazer sofrer a tantos e de tantos modos. Mas Deus não deixa de presentear, ele sempre está pronto para acolher, perdoar, reconciliar, chamar à vida, dar nova chance, re-ligar. Ele é o SENTIDO que nos faz compreender a vida e enfrentar seus mistérios mais desafiantes.

A história da humanidade, a história do Cristianismo, a história Marcelina desde o começo com BIRAGHI e até hoje com seus seguidores e seguidoras, a nossa história do Brasil, enfim, todas essas histórias e muitas outras estão repletas de pessoas que descobriram e ajudaram os outros a descobrir este SENTIDO: profetas, mártires, santos, heróis, pessoas anônimas... Construíram nossa história e nos desafiam a fazer o mesmo. Fizeram-se, verdadeiramente, seres humanos, como homens e mulheres, e nos chamam a construir e a dinamizar a nossa pessoa. O Espírito de Deus sempre esteve e sempre estará presente animando-nos nesta tarefa. Ele é a chama que ilumina, o fogo que aquece e abrasa os corações, Aquele que unifica a comunidade trinitária (PAI-FILHO-ESPÍRITO), comunidade-modelo de unidade e pluralidade (da igreja, família, sociedade) de interioridade e abertura, expressão maior do SENTIDO: O AMOR!

Os fundamentos antropológicos que devem nortear nosso Programa de Educação Religiosa revelam, pois, uma concepção de ser humano pluridimensional, articulada no extraordinário conceito de pessoa. Esta pluridimensionalidade, complexa e diversa, recolhe o que há de mais significativo na tradição filosófica, eclesial e teológica e, em sua amplitude e profundidade, revela-se capaz de dialogar, de forma crítica, com as ciências e com a racionalidade contemporânea. Mostra-se ainda como concepção provocadora da interdisciplinaridade, integrando e respeitando, profundamente, a diversidade e a diferença. Estes fundamentos são o alicerce que estrutura o trabalho, o esforço, a dedicação e a coragem de educandos e educadores em descobrirem-construirem O SENTIDO DA VIDA: DEUS. Muitos não reconhecerão o SENTIDO com este nome. Talvez digam que o SENTIDO é o amor, a justiça, a liberdade... Mas nós sabemos identificá-lo. E foi graças ao testemunho de tantos que reconhecemos que DEUS É O AMOR.
Todo projeto pastoral-pedagógico das ESCOLAS MARCELINAS quer ser proclamador e anunciador desta boa-notícia. Podemos, através deste instrumento, ser o sinal-sacramento, eficaz e visível, deste presente (GRAÇA), a mediação deste encontro. Assim, poderemos dizer com Maria "faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1,38) e com Jesus

"O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me ungiu
para evangelizar os pobres;
enviou-me para proclamar a remissão aos presos
e aos cegos a recuperação da vista,
para restituir a liberdade aos oprimidos,
e para proclamar uma ano de graça do Senhor"
(Lc 4,18s)

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